200 ANOS DE MARIA FIRMINA DOS REIS
Profa. Dra. Ellen dos Santos Oliveira (UFS)
Em 2022, quando este livro é publicado, ano em que o Brasil comemora 200 anos de sua Independência política, celebra se também 200 anos de nascimento da primeira educadora das Letras e primeira romancista da Literatura Brasileira, MARIA FIRMINA DOS REIS (11/03/1822 a 11/11/1917).
Uma mulher ícone, por seu pioneirismo e seu engajamento sócio-político na Educação e nas Letras, considerada mãe da educação pública brasileira. No cenário das Letras, podemos dizer que se José de Alencar é o pai da Literatura Nacional, Maria Firmina dos Reis é a mãe, isto é, a matriarca da Literatura Afro-brasileira, consagrada com todas as honras e louvores como “Rainha abolicionista”. Contudo, apesar de sua epopeica importância para a Educação, Letras e Literatura Nacional, por muitos anos essa célebre escritora negra foi legada ao esquecimento histórico. De fato, chegou-se ao século XX diante de um injusto esquecimento da biografia e bibliografia de Maria Firmina dos Reis, cuja existência foi totalmente ignorada até a década de 60, quando se teve notícias de uma mulher negra escritora do século XIX e do fato de que o primeiro livro/romance brasileiro foi escrito por essa mulher desconhecida, anônima, que usava pseudônimo de “uma maranhense”, e que por mais de século foi ignorada na História.
De modo que, nota-se um emprenho por parte da crítica e historiografia literária contemporânea em resgatar e estudar a biografia e bibliografia de Maria Firmina, propondo uma revisão e reformulação do cânone literário, e com isso, dar espaço e voz a uma mulher negra que viveu, amou, sofreu, ensinou, aprendeu e escreveu no Brasil ainda escravocrata do século XIX. Sendo assim, a fim de suprir essa lacuna de esquecimento histórico e contribuir com os estudos contemporâneos sobre a autora, esse livro “200 ANOS DE MARIA FIRMINA DOS REIS: primeira educadora e escritora negra do Brasil”, reuniu estudos científicos de pesquisadores empenhados e dedicados à leituras e análises das obras dessa honrada educadora e escritora maranhense, que merece ser lida, reconhecida e divulgada no âmbito escolar, acadêmico e científico.
Neste livro, o leitor encontrará 4 capítulos que apresentam reflexões pertinentes sobre a biografia e bibliografia de Maria Firmina dos Reis, pontuando características literárias de suas obras e ressaltando o caráter sócio-político e engajado de uma mulher negra, feminista e abolicionista. Além de propor reflexões sobre o ensino e leituras de obras da escritora na sala de aula e além dela, uma vez que suas obras apresentam pensamentos críticos sobre humanidade, igualdade, liberdade, e fraternidade entre os seres humanos que podem vir a contribuir com uma formação mais humana e solidária.
No primeiro capítulo, Larissa da Silva Sousa, apresenta um descobrimento estudo pelo histórico-crítico do pseudônimo de “uma maranhense” ilustre em meados de 1962, pelos pesquisadores José Nascimento Morais Filho e Horácio de Almeida, revelada com o nome de Maria Firmina dos Reis, autora de Úrsula (1859), primeiro romance escrito por uma mulher negra no Brasil, fazendo um percurso da trajetória ascendente da escritora maranhense – desde suas origens, passando pela infância sofrida e traumatizada da autora, celebrando sua posse no célebre histórico concurso público como professora das “Primeiras Letras”, no Estado do Maranhão, e constatando que imensa foi a contribuição de Maria Firmina para a literatura Nacional, jornais e periódicos da época, marcando sua presença intelectual nos debates, discursos e denúncias da época contra as injustiças e infâmias da escravidão, informações acerca dessa forte atuação podem ser conferidas no “Álbum” de Firmina, ou “Livro da alma”, que é uma espécie de diário íntimo e pessoal das angústias, dos anseios, dos medos, das tristezas, em suma, das lutas e sofrimentos cotidiano de vida dessa mulher negra do século XIX. Além de fazer uma reflexão crítica da importância da obra de Firmina para tradição literária e aponta algumas considerações para lutar contra a marginalização, o preconceito e o descaso com a contribuição histórico literária dessa Matriarca da Literatura Nacional.
No segundo capítulo, Erica de Lima de Matos, põe em evidência o protagonismo histórico de Maria Firmina dos Reis, como professora e escritora de destaque heroico na sociedade maranhense dos oitocentos, ao introduzir em suas obras ideias políticas e sociais bastantes polêmicas para sua época, tais como: escravidão e liberdade; 200 ANOS DE MARIA FIRMINA DOS REIS | 17 abolicionismo; 200 ANOS DE MARIA FIRMINA DOS REIS 18/ devassidão sexual; a loucura feminina; entre outros.
Além disso, Maria Firmina é celebrada por dar voz aos negros – em especial à escrava – ao índio, e à mulher. Três tipos humanos que são valorizados e refletidos como elementos da identidade nacional, e não somente a figura do índio – tão bem amplamente explorada pelos autores indianistas. Suas narrativas de terror e suspense, são capazes de impactar o leitor pelos desfechos trágicos e extraordinários, marcantes em seu estilo próprio, peculiar e inovador.
No terceiro capítulo, Ellen dos Santos Oliveira, apresenta uma leitura crítica de Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis, descoberto na década de 60, junto com a autora, e certificado como primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher negra na Literatura Brasileira e que, junto com outras da autora, com mesma temática e mesmo espírito, consagra a maranhense como “Rainha abolicionista” que, mesmo diante das injustiças sociais e políticas, dos traumas, dos preconceitos, conserva a fé em Deus e nos homens, invocando em suas obras ideias de solidariedade, igualdade e fraternidade entre os seres humanos. Confere-se uma legitimação da identidade dessa educadora, escritora e intelectual negra – filha de mulata liberta, ex-escrava, e homem de posses – e que, abraçando a causa de sua gente, militou contra as práticas escravistas e se engajou nas lutas abolicionistas, fazendo de sua escrita seu lugar de resistência e combate, na qual, por exemplo, por meio de personagens como Suzana, consegue dar voz à escrava e com Luíza consegue revelar, de modo intimista, a alma da mulher de seu tempo.
No quarto capítulo, Valdeléia Maria dos Santos, apresenta algumas reflexões e possibilidades de leitura e ensino das obras de Maria Firmina em sala de aula. Ressaltando que se deve levar em consideração a representatividade, protagonismo e atuação dos negros em suas narrativas, crônicas e poemas. Do ponto de vista da ótica da escritora – filha de mulher mulata liberta e homem branco de posses – as histórias de Firmina são narradas sob a ótica do escravo e refletem a mentalidade e o espírito abolicionista da autora, e não a visão alienada da elite dominante. Ainda nesse capítulo, é compartilhada uma defesa coletiva oriunda de esforços de leitores, intelectuais, pesquisadores da biografia e bibliografia de Maria Firmina dos Reis, e a busca pelo resgate e pela manutenção dessas obras, propondo uma revisão e reformulação do cânone literário brasileiro, de modo a incluir as obras de Maria Firmina na historiografia literária brasileira.
À guisa de conclusão, ratifica-se a importância de resgate e manutenção de Maria Firmina dos Reis e ainda é pouco todos os esforços em prol da valorização e reconhecimento da primeira mulher negra, professora e escritora abolicionista no Brasil abolicionista no século XIX, uma vez que essa deixou para o cenário das Letras, uma epopeica produção literária, a saber: Úrsula (1859); Gupeva (1861); Cantos à beira mar (1871); A escrava (1887); Hino da Libertação dos escravos (1888); Hino à mocidade; Auto de bumba meu boi; Valsa; Rosinha; Pastor estrela do Oriente; Canto de recordação; entre outros poemas e outras obras inéditas ainda sendo descobertas.
Nesse empenho por valorização e reconhecimento do protagonismo feminino dessa maranhense, com este livro “200 ANOS DE MARIA FIRMINA DOS REIS: primeira educadora e escritora negra do Brasil”, pretende-se contribuir com a crítica e historiografia literária contemporânea interessados e engajados na busca e na reafirmação cultural do protagonismo dessa mulher que viveu a dor da escravidão e resistiu e lutou a favor da vida e da liberdade para sua gente sofrida do Brasil oitocentista.
SOBRE A ORGANIZADORA
ELLEN DOS SANTOS OLIVEIRA
Professora, pesquisadora, crítica literária e escritora. Doutora e Mestra em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Possui graduação em Letras Português e suas respectivas Literaturas pela Faculdade São Luiz de França (2012), especialização em Cultura e Literatura pelo Centro Universitário Barão de Mauá, e especialização em Teoria Literária, Literatura brasileira e Língua Portuguesa pela FACUMINAS. Foi membro do NEC - Núcleo de Estudos de Cultura e membro do CIMEEP - Centro Internacional e Multidisciplinar de Estudos Épicos da UFS.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/0243081448488165
E-mail: aprofessoraellen8@gmail.com
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