100 ANOS DA 

SEMANA DE ARTE MODERNA

 

Profa. Dra. Ellen dos Santos Oliveira (UFS)

 

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    Entre os dias 13 a 17 de fevereiro de 2022, no Theatro Municipal de São Paulo, ocorreu a conhecida “Semana de Arte Moderna” ou “Semana de 22” na qual foram apresentadas ao público presente uma nova concepção de arte e cultura que, mascarada de intelectualismo e concepção inconsciente do “fazer artístico”, por meio de pesquisas e estudos, retomando o passado para (re) pensar o presente, tentaram definir o Brasil, sua cultura e sua gente.

 

   A Semana de 22, realizada nesse período, é considerada como um movimento intelectual e artístico no qual seus idealizadores e adeptos, influenciados pelas vanguardas europeias, buscavam questionar o sentido de ser brasileiro e de brasilidade, a fim de descobrir a alma do povo, buscando e rebuscando nas raízes brasileiras o que o Brasil possuía de mais original e que representava sua verdadeira identidade.

 

   Relembrando e refletindo de modo crítico sobre a Semana de 22, e a fase heroica instaurada entre 1922 a 1930, após a célebre Semana organizada por jovens intelectuais e artistas paulistas influenciados pelas concepções artísticas que ocorriam concomitantemente em países europeus, e a influência desse acontecimento histórico nas artes modernas, surgiu esse livro “100 ANOS DA SEMANA DE ARTE MODERNA”, que apresenta 16 textos críticos sobre questões relativas a esse momento impactante nas artes e a sua influência imposta bruscamente às demais artes nacionais.

 

    Em “Reflexões sobre a modernização e o modernismo brasileiro na cidade de São Paulo”, Bruna Araujo Cunha apresenta um panorama da cidade de São Paulo no século XX, na época dos alvoroços da Semana de Arte Moderna, a partir de uma reflexão crítica sobre as ideias de modernização e modernismo que animaram o movimento intelectual, artístico-cultural, fazendo da cidade um palco do movimento modernista e modelo de cidade moderna no Brasil.

 

    Em ““No fundo do mato virgem”. Apontamentos para uma questão cultural negra na gestação do modernismo”, Sebastião Lindoberg da Silva Campos propõe uma reflexão sobre questões pertinentes ao elemento cultural negro na reelaboração de uma identidade nacional no contexto do modernismo e a partir das propostas de renovação cultural estética da Semana de Arte Moderna. Assim, revisitando a Semana de 22, apresenta traços da matriz africana no processo de construção indentitária e no panorama do modernismo brasileiro.

 

    Em “Do pioneirismo de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral à identidade artística feminina no cenário contemporâneo”, Isabela Leão Nader analisa os reflexos do protagonismo feminino no contexto da Semana de Arte Moderna de 1922, em especial na pintura e na produção artístico-cultural, com ênfase nas célebres artistas Anita Mafalti e Tarsila do Amaral que participaram e contribuíram ativamente com a Semana de 22 e com a renovação cultural proposta pelo modernismo.

 

     Em “A participação de Heitor Villa-Lobos na Semana da Arte Moderna e a formação musical em curso”, Alcione Nawroski e Aleksandra Weglarz abordam a participação do musicista Heitor Villa Lobos na SAM – Semana de Arte Moderna, movimento revolucionário para renovação das artes brasileiras, e sua contribuição com a formação musical no Brasil, em especial a música clássica e seus reflexos na música contemporânea. Conforme revela as autoras, Villa-Lobos foi um exemplo de artista intelectual que produziu uma obra que canta a identidade brasileira e um mapa do Brasil que perscruta a alma brasileira.

 

     Em “Máscaras do modernismo e anacronismo em Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade”, o professor Selomar Claudio Borges, analisa o arlequinismo, ou máscara, como como uma expressão própria do movimento de 1922 e que fortalece o artifício de uma cultura que mascara a natureza ao defender uma nova cultura que eclode a partir de uma familiaridade ou camaradagem com as máquinas, como uma resposta expressiva ao apelo social. Assim, por meio desse mascaramento, defende uma escrita artística que valoriza o inconsciente, ou seja, as primeiras manifestações ou ideias que geralmente não são consideradas criações artísticas, mas os primeiros esboços, em contraposição ao intelectualismo e os excessos no poema. Trata-se, portanto, de conceber a criação artística no seu estado nascente e como um processo inacabado, em devir. Assim, revela a manifestação de um eu mascarado que dialoga com outros textos e tempos, pondo em evidência o mascaramento do escritor intelectual que se opõe ao próprio eu em defesa do saber e da cultura popular.

 

    Em “Um diálogo entre Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda nas páginas de Klaxon e Estética”, André Augusto Abreu Villela observa, a partir da análise de correspondências trocadas entre Mário e Sérgio no contexto de publicações para as revistas Klaxon e Estética, durante 1922 – 1944, a preocupação dos modernistas em solidificar e unificar o modernismo nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, de modo a engajar artistas e intelectuais nessa “causa universal, bela e alta”. Propondo, ainda, uma reflexão crítica sobre a estética e visão de mundo desses dois autores.

 

    Em “O poeta das viagens de bonde”: Mário de Andrade em Klaxon, o primogênito da semana de 1922”, Adalberto Rafael Guimarães propõe uma reflexão sobre o empenho de Mário de Andrade, o primogênito da Semana de Arte Moderna, e um dos principais idealizadores da primeira Revista Modernista, Klaxon, em reparar alguns erros apresentados na Semana de 22 e reafirmar o impacto cultural proposto pela ideologia modernista, buscando a aproximação com o folclore nacional, por meio do diálogo entre a cultura erudita e a cultura popular.

 

    Em “O Propósito Internacionalista de Klaxon, Mensário de Arte Moderna”, Ellen dos Santos Oliveira e Vilma Mota Quintela abordam três aspectos que contribuíram para a projeção internacionalista de Klaxon, primeira revista modernista: a contribuição de autores estrangeiros; o incentivo à leitura de livros e Revistas estrangeiras; e os artigos sobre fotografia e adaptações cinematográficas de obras históricas e literárias, tão em voga no século XX.

 

  Em “As concepções de história do movimento modernista nos bastidores da revista Klaxon: olhares sobre a correspondência de Sérgio Buarque de Holanda (1922-1925)”, Julia Silveira Matos ao analisar as correspondências de  Sérgio Buarque de Holanda, percebe as primeiras preocupações do autor de Raízes do Brasil com a História do Brasil, com sua gente, sua cultura, seus hábitos e seus costumes, defendendo que esses são mecânicos, importados ou herdados de influências externas.  Percebendo, por meio do estudo dessas correspondências, o germe do pensamento ideológico que impulsionou a participação ativa do historiador, mesmo desgostoso com a Literatura e com os modernistas.

 

    Em “Blaise Cendrars − o terceiro elemento do movimento Pau Brasil”, Eduardo Luis Araújo de Oliveira Batista questiona até que ponto a influência do poeta franco-suiço Blaise Cendrars (1887-1961) durante sua passagem pelo Brasil, na década de 20, foi importante na virada nacionalista no modernismo brasileiro, principalmente no que diz respeito à “valorização da estética primitivista”, apontada como principal fonte de renovação vanguardista da Europa, e que repercutiu em nosso país por meio da valorização de elementos da cultura nacional, como o negro, o índio, o popular e o regionalismo. Contrariamente à visão assentada sobre o tema, que vê Cendrars como guia dos brasileiros nesse processo, especialmente junto ao casal Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, o artigo revê a relação de influência entre os artistas e sugere que a virada nacionalista no modernismo brasileiro não teria sido motivada pela atuação do poeta europeu.

 

    Em “Um diálogo entre a psicanálise e o surrealismo”, Cassius Assunção Martins defende as contribuições do psicanalista Sigmund Freud (1886-1939), conhecido como “pai da psicanálise”, para compreender as obras de artes e os artistas, e propõe um diálogo entre a psicanálise e o surrealismo para compreender as produções artísticas manifestas no contexto da Semana de Arte Moderna, de modo a estabelecer aproximações entre essas duas escolas e suas principais correntes teóricas.

 

    Em “O homem moderno da Semana de Arte Moderna de 1922 refletido em Memórias Sentimentais de João Miramar”,  Yanka Fernandes Sena e Eldio Pinto da Silva apresentam um estudo sobre a representação do homem moderno nas Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade, partindo da reflexão da sociedade durante e após a Semana de 22, de modo a compreender as principais transformações sociais e a proposta modernista de representação artística do modernismo e do homem moderno. 

 

    Em “Macunaíma, neto de Leonardo: espaço social e construção do herói em Mário de Andrade e Manuel Antônio de Almeida”, Gustavo de Mello Sá Carvalho Ribeiro analisa as marcas culturais em Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, como uma representação literária do Brasil e seu povo, em pleno século XX, quando se comemorava o centenário da Independência do Brasil, e após o marco histórico da Semana de Arte Moderna, dando ênfase ao perfil do escritor modernista enquanto pesquisador e estudioso do folclore nacional e da gente brasileira.

 

     Em “A variedade cultural brasileira na literatura, na intelectualidade e na política de Mário de Andrade”, Luciano Chinda Doarte analisa aspectos políticos na obra literária de Mário de Andrade, como um artista-intelectual e ator social, reconhecendo-as como obras de engajamento intelectual e político na década de 1930, fase de amadurecimento da Arte Moderna, passando os primeiros arroubos da Semana de 22.

 

     Em “Poema e teoria, Manuel Bandeira: o bicho”, Keila Mara Fraga Ramos de Oliveira analisa aspectos modernos na poética de Manuel Bandeira, dando ênfase ao poema “O bicho”, que é coerente com a proposta estética modernista engajados desde a Semana de 22, e demais características estilísticas adotadas no fazer poético e, também, questões socioculturais e o realismo que passa a integrar as artes modernas de forma mais intensa e amadurecida.

 

     Em “Modernidade tardia ou alteridade negada?”, Adriana Carolina Hipolito de Assis  partindo da reflexão desses 100 anos de Semana de Arte Moderna, observa de forma crítica que embora foram abordadas, nas artes, questões relativas à mestiçagem, faltou entre os intelectuais  a representação de artistas negros e índios, e propõe uma reflexão historiográfica do modernismo pensando a partir da percepção da representatividade faltante desses agentes fenotípicos.

 

    Observa-se abaixo na foto dos organizadores da Semana de 22, tais como Mario de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Victor Brecheret, entre outros, que nenhum deles era negro ou índio:

 

Figura 4- Registro fotográfico dos organizadores da Semana de Arte Moderna 

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Fonte: Site Terra. Disponível em: https://chickenorpasta.com.br/2021/o-centenario-da-semana-de-arte-moderna-de-1922-ja-comecou

      Pretende-se com este livro “100 ANOS DA SEMANA DE ARTE MODERNA” ou da “SEMANA DE 22” contribuir com reflexões sobre a importância desse acontecimento consagrado pela crítica e historiografia literária como um marco do modernismo e da modernidade no Brasil.

 

 

 

SOBRE A ORGANIZADORA

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ELLEN DOS SANTOS OLIVEIRA

 

Professora, pesquisadora, crítica literária e escritora. Doutora e Mestra em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Possui graduação em Letras Português e suas respectivas Literaturas pela Faculdade São Luiz de França (2012), especialização em Cultura e Literatura pelo Centro Universitário Barão de Mauá, e especialização em Teoria Literária, Literatura brasileira e Língua Portuguesa pela FACUMINAS. Foi membro do NEC - Núcleo de Estudos de Cultura e membro do CIMEEP - Centro Internacional e Multidisciplinar de Estudos Épicos da UFS. 

 

Lattes: http://lattes.cnpq.br/0243081448488165

E-mail: aprofessoraellen8@gmail.com

 

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