130 ANOS DE GRACILIANO RAMOS
Prof. Dr. Gustavo de Mello Sá Carvalho Ribeiro (UNESP)
2022 é um ano fundamental para a revisitação de momentos, autores e temas da história literária brasileira. Além de relermos a Semana de Arte Moderna em seu centenário, não podíamos deixar de voltar os olhos para os 130 anos de nascimento de um dos nossos maiores escritores, que surgiu no modernismo da segunda geração e contou com uma produção de alto nível estético[1], envolvendo, em especial, contos, crônicas, romances, autobiografia, romance testemunhal e cartas: Graciliano Ramos de Oliveira, o Velho Graça, nascido em Quebrangulo-AL, em 27 de outubro de 1892.
Criador de grandes personagens e cenários, Graciliano marcou as letras brasileiras por seu estilo ímpar e plural. Otto Maria Carpeaux (1987, p.243-244), para quem "Estilo é escolha entre o que deve perecer e o que deve sobreviver.", afirma que o de Graciliano Ramos é "[...] amusical, adinâmico, estático, sóbrio, clássico, classicista [...]" e que o escritor representa um "[...] mundo inferior; às mais das vezes, o mundo infernal." Nessa mesma linha, um dos poemas mais famosos de João Cabral de Melo Neto (2010, p.241-242), cujo título é o nome do escritor alagoano, ressalva as "mesmas vinte palavras" que falam "do seco" onde se cultiva apenas "o que é sinônimo de míngua".
De modo geral, pode-se dizer que a poética de Graciliano se configura dessa forma, mas é preciso ter em mente que estamos tratando de uma obra vasta em que cada um dos livros, por mais que apresentem traços em comum, revelam peculiaridades e mesmo contrastes. A economia vocabular de Vidas secas, por exemplo, não ocorre no discurso transbordante e ensimesmado de Angústia; algumas imagens construídas em Infância podem ser bastante poéticas e impressionistas, assim como as do espaço tão detalhadamente construído em S. Bernardo, que apresenta trechos até mesmo cadenciais.
Outra característica marcante em grande parte de sua produção é a crítica minuciosa não só da sociedade representada, mas também da forma de a representar. "Graciliano Ramos é um caso raro entre nós de escritor cuja literatura é crítica da realidade e, ao mesmo tempo, da própria literatura." (BASTOS, 1998, p.41) porque os aspectos metalinguísticos de seus textos refletem sobre a melhor maneira de narrar determinada situação e também sobre a arte literária como um todo, o que é visível, principalmente, nos livros de caráter autobiográfico.
Um autor tão rico e diverso merece ser lido em sua totalidade, ou seja, a partir de tudo aquilo que produziu, para que percebamos os sentidos possíveis dos seus escritos e o quanto eles são ainda atuais. Esse é, muitas vezes, o papel dos estudos literários: analisar, interpretar, rever uma obra para construir, com ela, os significados que estão nela em potencial. É este o propósito deste livro: (re)pensar parte da produção de Graciliano Ramos e sua atualidade 130 anos após o nascimento do escritor.
No primeiro capítulo, “Graciliano Ramos e sua fortuna crítica”, Evandro José dos Santos Netos propõe fazer uma crítica da crítica, ou seja, revisitar os principais estudiosos que se debruçaram sobre o escritor alagoano e apreciar o modo como essa crítica foi feita.
Já no segundo capítulo, “Graciliano Ramos e a questão do cangaço”, escrito por Vanessa de Paula Hey, temos a análise de um dos temas que mais percorre a obra do Velho Graça e que, recentemente, teve diversos textos a seu respeito compilados no volume Cangaços, organizado por Thiago Mio Salla e Ieda Lebensztayn. Vanessa Hey faz uma análise de diversos desses textos, revelando o quanto a questão do cangaço é importante na produção de Graciliano.
O terceiro capítulo, escrito a seis mãos, por Ana Paula Ferreira dos Santos, Cristiano Cezar Gomes da Silva e Maria Izabel Ferreira dos Santos, tem o instigante título “Entre a Literatura e o Direito: a obra Vidas secas, de Graciliano Ramos, na perspectiva histórico-jurídica brasileira”. Trata-se de uma interpretação interdisciplinar que parte de episódios relevantes de um dos romances mais importantes do autor para pensar os sentidos jurídicos de seus desdobramentos.
Como se poderá ver, os aspectos referentes à justiça e ao Direito são comuns em toda a lavra de Graciliano e é o que nos revela a perspectiva da criança no romance autobiográfico Infância, em que, recriando suas primeiras impressões sobre o mundo, o escritor representa o espaço social sertanejo, em especial a partir das injustiças vividas por ele. É essa investigação o cerne de nosso capítulo, cujo título é “A questão da justiça pelo olhar da criança em Infância, de Graciliano Ramos”.
Por último, temos uma bela análise de um dos romances mais possantes de nossa literatura, que é Angústia, protagonizado por uma de nossas personagens mais trágicas, Luís da Silva, com seus dramas pessoais vividos na sociedade burguesa de Maceió. É sobre a composição desse protagonista que versa o capítulo “A impossível fuga de si em Angústia, de Graciliano Ramos”, de Elzio Quaresma Filho e Elvis Borges Machado.
Com isso, esperamos que o leitor possa encontrar boas reflexões sobre a obra de Graciliano Ramos, com suas inesgotáveis possibilidades de abordagem. A leitura partirá da crítica, passará por textos diversos como as crônicas reunidas recentemente em Cangaços, pelo monumental Vidas secas, pela autobiografia Infância e chegará no romance Angústia, que também traz muito do pensamento de seu autor, o que fez Maria Célia Leonel e Segatto (2015) chamarem-no de “autobiografia confessional”. Assim, pretendemos ter apresentado uma oportuna (re)visitação da lavra do Velho Graça, neste 2022 em que comemoramos seus 130 anos.
REFERÊNCIAS
BASTOS, Hermenegildo. Memórias do cárcere: literatura e testemunho. Brasília: Universidade de Brasília, 1998.
CARPEAUX, Otto Maria. Visão de Graciliano Ramos. In: GARBUGLIO, José Carlos; BOSI, Alfredo; FACIOLI, Valentim. Graciliano Ramos. São Paulo: Ática, 1987, p.243-248.
LEONEL, Maria Célia; SEGATTO, José Antonio. Graciliano Ramos: configurações autobiográficas. Itinerários. Araraquara, n. 40, p.75-95, jan./jun. 2015.
MELO NETO, João Cabral. Melhores poemas de João Cabral de Melo Neto. Seleção e prefácio de Antonio Carlos Secchin. São Paulo: Global, 2010.
[1] A produção de Graciliano Ramos é vasta, contendo: a) romances ficcionais: Caetés de 1933, S. Bernardo de 1934, Angústia de 1936 e Vidas secas de 1938; b) aquilo que podemos, convencionalmente, chamar de ‘escritas de si’: Infância, romance autobiográfico dos primeiros anos de vida, datado de 1945 e Memórias do cárcere, romance testemunhal de 1953; c) coletânea de contos: Insônia de 1947; d) literatura infantojuvenil: A terra dos meninos pelados de 1939 e Histórias e Alexandre de 1944; e) coletâneas póstumas de crônicas, correspondências, depoimentos e entrevistas: Viagem de 1954, Linhas tortas de 1962, Viventes das Alagoas também de 1962, Cartas de 1980, Garranchos de 2012, Cangaços e Conversas de 2014.
SOBRE O ORGANIZADOR
GUSTAVO DE MELLO SÁ CARVALHO RIBEIRO
Professor assistente doutor do Departamento de Linguística, Literatura e Letras Clássicas da FCLAr, UNESP de Araraquara-SP. Líder do Grupo de Estudos da Narrativa (GEN) sediado na UNESP de Araraquara-SP. Doutor em Estudos Literários pela UNESP de Araraquara-SP. Realizou estágio de pós-doutorado pela UFSCar entre 2021 e 2022. Autor do livro Direito, justiça e literatura: das Memórias de um sargento de milícias às Memórias do cárcere, publicado pela CRV em 2021.
E-mail: mahlauper@gmail.com
Lattes: http://lattes.cnpq.br/2592986683469801
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