LITERATURA:

questões críticas e teóricas

 

 

 

Profa. Dra. Ellen dos Santos Oliveira (UFS)

 

 

    

     A reflexão crítica e teórica sobre a LITERATURA é um exercício fundamental e epopeico na jornada intelectual do professor e pesquisador da Literatura. Esse exercício reflexivo começa desde o pensar na definição do próprio conceito acerca de como ela venha ser definida, classificada e caracterizada, quase sempre em oposição dialética daquilo que não deve ser considerado literatura, e, na verdade, buscando compreender como se origina o fato literário em uma escritura peculiar e diferenciada da escrita convencional e como a linguagem literária se realiza. Isto é, o que a torna tão diferenciada e tão peculiar em comparação ao texto histórico e jornalístico e o que a aproxima dos demais gêneros artísticos, confirmando seu caráter de obra de arte literária, ou seja, que usa a linguagem de modo artístico.

 

     A fim de contribuir com essa atividade intelectual exigida pelo pesquisador e crítico da Literatura, este livro composto por 05 capítulos apresenta reflexões críticas e teóricas pertinentes e atuais relacionadas à natureza e às características peculiares da LITERATURA. Nele encontra-se questões basilares que vão desde o conceito acerca do “que é Literatura?”, perpassando pelos limites da “ficção” e da “não-ficção”, entrando em uma discussão científica importante sobre a importância e o papel do leitor no exercício da Crítica Literária, e se envolvendo em uma reflexão crítica e teórica importante sobre a Literatura Infantil e a formação do leitor na contemporaneidade e, por fim, mas não menos importante, participando de um debate em torno da polêmica do Gênero Épico.

 

    No primeiro capítulo “O que é Literatura?” proponho uma reflexão sobre os conceitos geralmente amplamente usados por professores e críticos no empenho de definir a natureza do literário e suas características peculiares. Nesse debate, o tema divide-se em dois tópicos: no primeiro, pensamos na origem do conceito por Aristóteles no sentido de “imitação” e, depois, por Platão como “emulação”, baseando nossa reflexão na contribuição teórica de Luiz Costa Lima e, em seguida, pensando nas definições aceitas consensualmente nos debates contemporâneos pela Crítica literária atual e que são bem pontuadas por Terry Eagleton, chamando a atenção para o caráter ideológico da Literatura e para a performance subjetiva do crítico literário na tentativa de definir o que venha ser considerado Literatura em distinção daquilo que não é aceito como literário.

 

      No segundo tópico, refletindo sobre os resultados de pesquisa de campo por meio de entrevistas a estudantes de cursos de Letras que participaram do projeto de extensão universitária “Ciclo Literatura Comentada” percebemos que apesar dos vários conceitos existentes, e que são usados frequentemente para definir o texto literário, tal tarefa continua complexa e muito polêmica nos diálogos e nos debates críticos-teóricos contemporâneos.

 

     No segundo capítulo “Entre composição e problemática: discutindo a ficção e não ficção no texto literário” Alisson Preto Souza e Lúcia Sá Rebello contribuem com uma reflexão crítica e teórica fundamental a respeito dos termos conceituais de “ficção” e “não ficção”, tão basilares na definição do caráter do literário e do não literário que um texto pode apresentar.

 

    Conforme pontuam os autores, é da relação conflituosa e antagônica que o texto literário emerge apresentando uma concepção filosófica do que venha ser arte. Ou seja, nesse preâmbulo o caráter da obra de arte será delineado a partir desse embate entre esses dois conceitos.Nesse contexto, o escritor não é somente um gênio intelectual, mas um sujeito complexo que parte de sua experiência humana-existencial que na realização da escrita criativa busca agenciar na escritura suas experiências – sensoriais, linguísticas e socioculturais, entre outras – tentando recriar por meio do ato de escrever de modo literário toda sua complexidade humana vivenciada em uma realidade paralela imaginada e inventada sob a ótica de seu autor e a partir de suas habilidades criativas acerca de elaborações representativas das práticas sociais.

 

    É nesse embate entre o que é ficção e não ficção – dentro dos limites da imaginação e da realidade, das concepções de arte e dos critérios da ciência, que a literatura será composta e problematizada, buscando sempre, de algum modo peculiar, engajar o leitor seja por meio da criatividade artística, seja pelo aspecto de verossimilhança.

 

     Nesse cenário contemporâneo de escrita ficcional e não ficcional, o escritor também será influenciado pelas inovações midiáticas e pelo avanço tecnológico e pela influência da internet, contudo mantendo a ideia de realidade atualizada a partir de um olhar sempre atual na escritura do texto literário. Sendo assim, as concepções de ficção, conforme mostram os autores, também serão influenciadas pelos movimentos intermidiáticos e culturais, sem que a literatura venha perder sua visão tradicional de “escrita erudita”, engajada, e altamente artística e valorizada pela sociedade.

 

     No terceiro capítulo “Os ecos das Confissões de um jovem romancista e o lugar do leitor e da crítica na obra literária” Rogério Ferreira de Araujo dá ênfase ao papel e à importância do leitor no exercício da crítica literária, na valorização da obra literária e na repercussão que ela pode ter na recepção social no cenário de uma comunidade literária formada por escritores e leitores e no mercado editorial.

 

      Nessa leitura o autor defende que a performance do leitor diante da leitura da Literatura e sua avaliação crítica pode determinar o destino da obra lida na sociedade literária. Pensando assim, põe em questão a tarefa da Teoria Literária e da Crítica Literária diante do exercício de leitura e de análises literárias que acabam sempre seguindo a orientação de alguma base ideológica especializada acerca dos vários gêneros e tipos de obras, desde àquelas rotuladas como marginais como as consideradas mais canônicas.

 

      Ainda nesse preâmbulo, o autor ressalta a importância de um tipo de leitor crítico que deve ter um perfil, digamos, de investigador e pesquisador, ou seja, que tenha curiosidade e aptidão para averiguar como ocorreu a “gestação literária” – o que seria uma função da crítica genética que busca reunir documentos – literários, históricos, geográficos, científicos e artísticos – a fim de construir um dossiê genético capaz de explicar a gêneses da criação, que significa o mesmo que “gestação literária”, investigando o nascimento genético da escritura, como uma metáfora da origem da criação ou da escrita criativa bem como todas as fases da gestação, tal como as fases do processo criativo.

 

      Nessa defesa, o autor faz uma reflexão interessante partindo da leitura do romance de Umberto Eco para pensar sobre essa relação do escritor – no caso, o romancista – e a sua relação com a escritura e com o leitor, e a capacidade daquele de despertar a curiosidade e o senso crítico desse. Trata-se de uma relação que reivindica um olhar crítico do leitor para que esse seja capaz de perceber o talento e a criatividade do escritor e, diante de tal percepção, que possua habilidade e senso crítico para compreender de modo como Eco explicar sobre a “técnica da dupla codificação”, usada pelo escritor. Recorda-se que tal técnica remete ao conceito de double coding que se refere à capacidade leitora de perceber a intertextualidade e a ironia que só um leitor crítico é capaz de perceber por trás das palavras do autor, pois aquele não se contentará com a leitura ingênua de senso comum, mas buscará fazer uma leitura de senso crítico aliada à pesquisa histórico-literária, e até interdisciplinar e intertextual.

 

      Nesse empenho, o texto pontua que o papel da Crítica Literária é consagrado como fundamental na busca pela melhor leitura e interpretação da obra literária – e Eco trabalha com os conceitos de interpretação e superinterpretação – e na revelação de seu sentido mais profundo e verdadeiro para a avaliação e valorização da expressão literária e artística de seu autor.

 

      No quarto capítulo “Literatura Infantil: questões críticas e teóricas para a formação do leitor”, Nathalia Maria Rodrigues Mecias propõe uma reflexão crítica e teórica sempre bem-vinda e relevante para pensarmos sobre assuntos relacionados à Literatura Infantil e à importância que essa pode vir a desempenhar na formação crítica do leitor. Um tema importante que deve ser considerado de grande relevância para críticos e professores de Literatura  conscientes e engajados na busca de uma melhor performance no ensino da Literatura e como essa pode vir a contribuir para a formação de uma sociedade de leitores cada vez mais críticos e conscientes de seu papel no mundo e, nesse sentido, é consenso entre estudiosos e pesquisadores de Literatura que essa formação de leitores deve ser iniciada na infância e se estender por toda vida adulta, dando continuidade na formação humana para formação de cidadãos mais críticos e conscientes.

 

      Nessa defesa pelo ensino da Literatura Infantil, a autora baseada em críticos que participam do amplo debate sobre a importância da Literatura e sua função na sociedade, - tais como: Candido (1995), (2011), Amarilha (2009), Cademartori (2010), Coelho (2000) e Oliveira (2008) – em concordância e apresentando-se em defesa da leitura e do ensino da Literatura Infantil na escola, sendo esse desde sempre considerado um espaço privilegiado e que deve ser muito valorizado para essa finalidade pedagógica, educativa e social eficaz para ensinar e despertar o gosto e interesse pela leitura da Literatura, como arte da palavra, como expressão imaginativa e valiosa, necessidade vital do ser humano e expressão artística essencial para compreender as práticas sociais.

 

      No quinto capítulo, proponho uma reflexão crítica, pertinente e atual “Sobre a polêmica em torno do épico”. Gênero esse sempre tão valorizado desde a antiguidade clássica – a exemplo de Homero, Apolônio de Rodes, Hesíodo, Virgílio, Ovídio, Lucano e outros escritores épicos que seguiram a tradição clássica de escrita do gênero épico – como forma literária consagrada por melhor representar os feios heroicos de uma Nação, de um povo, ou de um determinado personagem considerado heroico na concepção histórica e que se tornou mítico, por alguma aderência mítica de algum feito considerado sobrenatural, mas que embora tenha sido um gênero muito valorizado por muito tempo, segundo Mikhail Bakhtin desde os séculos XVIII e XIX, com a ascensão do gênero romanesco, foi dado como gênero velho, enrijecido, esclerosado, morto e inacabado, sendo considerado incompatível para representar os feitos heroicos de uma nação, seu povo e seus heróis na modernidade.  

 

      Indo contra a determinação crítica teórica que concordavam com a ideia de noção de “morte do gênero épico”, pesquisadores do CIMEEP – Centro Internacional e Multidisciplinar da UFS – reuniram-se com objetivos de estudar os argumentos críticos e teóricos acerca do gênero em questão e das obras épicas que foram produzidas ao longo da história, e daquelas que propõem algum diálogo com o épico ou apresenta alguma característica ou aspectos épicos a fim de comprovar e confirmar a existência e a prática da escrita do gênero ainda na modernidade.

 

     De modo geral, o livro o “LITERATURA: questões críticas e teóricas” apresenta-se como veículo importante para refletir sobre questões relevantes para o professor e pesquisador de Literatura interessados em questões relacionadas ao caráter do que venha ser ou não Literatura e das questões ideológicas em torno do texto literário.  

 

 

 

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SOBRE A ORGANIZADORA

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ELLEN DOS SANTOS OLIVEIRA

 

Professora, pesquisadora, crítica literária e escritora. Doutora e Mestra em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Possui graduação em Letras Português e suas respectivas Literaturas pela Faculdade São Luiz de França (2012), especialização em Cultura e Literatura pelo Centro Universitário Barão de Mauá, e especialização em Teoria Literária, Literatura brasileira e Língua Portuguesa pela FACUMINAS. Foi membro do NEC - Núcleo de Estudos de Cultura e membro do CIMEEP - Centro Internacional e Multidisciplinar de Estudos Épicos da UFS. 

 

Lattes: http://lattes.cnpq.br/0243081448488165

E-mail: aprofessoraellen8@gmail.com

 

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